A principal revista eletrônica de Arquitetura Paisagísticado Brasil !

MATA São Paulo: a paisagem como elo entre patrimônio, arquitetura e cidade


A MATA São Paulo representa uma nova forma de pensar a relação entre cidade, natureza e experiência urbana. No coração de São Paulo, o projeto de regeneração reúne patrimônio histórico, arquitetura contemporânea, paisagismo, arte, hospitalidade, gastronomia e cultura, criando um ecossistema que se conecta à cidade e convida diferentes públicos a vivenciar seus espaços.

O paisagismo tem papel estruturador nessa transformação. Inspirado na riqueza e na diversidade da Mata Atlântica, ele percorre e conecta edificações de diferentes épocas e linguagens, cria percursos, áreas de permanência e novas relações com o entorno, ao mesmo tempo em que contribui para tornar a experiência mais humana, sensorial e acolhedora.

Para compreender os conceitos e as decisões por trás dessa paisagem, a Paisagismo em Foco conversou com Benedito Abbud, arquiteto paisagista responsável pelo projeto paisagístico do complexo, que acompanhou de perto os anos de desenvolvimento, implantação e amadurecimento da vegetação.

Agora, com os espaços consolidados e sendo vividos diariamente por hóspedes, visitantes, trabalhadores e moradores da cidade, a conversa parte do projeto idealizado para observar a paisagem que efetivamente ganhou vida.

Nesta entrevista, Abbud fala sobre a visão de Alexandre Allard, a Mata Atlântica como elemento estruturador do projeto, biofilia, sustentabilidade social, gentilezas urbanas, a transformação do entorno e as histórias afetivas que ajudaram a construir uma paisagem que hoje parece natural — embora, como ele próprio resume, “esse óbvio tenha sido totalmente construído”.

Paisagismo em Foco - Benê, começando pelo conceito do projeto: de onde surgiu a ideia de trazer a Mata Atlântica para o coração de São Paulo?

Benedito Abbud - Esse projeto nasce de um sonho do Alexandre Allard. Na primeira reunião que tive com ele, Alexandre me disse: “Abbud, vocês têm uma coisa maravilhosa aqui em São Paulo, que é a Mata Atlântica. Ela sobe a Serra do Mar e eu gostaria que ela voasse, descesse pelas encostas do edifício Mata Atlântica e se espalhasse pelos antigos jardins do Conde Matarazzo”.

A partir daí, trouxemos vários conceitos para o projeto. Um deles é justamente essa ideia de oásis. Um oásis é um lugar onde você está envolto pela natureza.

Hoje se fala muito em biofilia, mas a essência é justamente essa reconexão. Nós viemos da natureza e as grandes cidades estão passando por um processo de naturalização porque, durante muito tempo, a paisagem urbana foi construída prioritariamente em função dos automóveis e dos veículos.

Paisagismo em Foco - Quando se fala em biofilia, muita gente ainda associa o conceito apenas à presença da vegetação. Aqui ela parece ir muito além disso.

Benedito Abbud - A biofilia só existe porque é para as pessoas. Quando projetamos, pensamos na escala de quem está vivendo aquele espaço. Aqui, por exemplo, o conceito que permeia o projeto é uma leitura estética da Mata Atlântica.

A Mata Atlântica é extremamente diversa. Não é uma floresta homogênea. Então trabalhamos com folhas mais claras, mais escuras, pequenas, grandes, diferentes texturas e volumes, justamente para trazer essa diversidade e construir uma fisionomia que remetesse à Mata Atlântica. Mas as pessoas não têm apenas visão. 

Elas têm olfato, então inserimos espécies aromáticas. Têm paladar, por isso utilizamos muitas espécies frutíferas. Temos inclusive abelhas sem ferrão produzindo mel. Existe também o tato. Quando você caminha sob as copas das árvores, em alguns momentos o sol toca a pele e em outros você entra na sombra. Temos ainda a audição. A quantidade de pássaros que passou a frequentar esse jardim depois de sua implantação é incrível.

E existe algo que considero ainda mais importante: as memórias afetivas. Por exemplo, Alexandre Allard pediu que tivéssemos um exemplar de pau-brasil. Estamos no Brasil e ele queria reverenciar essa experiência de estar no nosso país. Então o paisagismo vai muito além da vegetação. Ele trabalha com os sentidos e com aquilo que desperta emoção nas pessoas.

Paisagismo em Foco - Um dos aspectos mais interessantes da Cidade Matarazzo é observar públicos muito diferentes utilizando o complexo. Como essa democratização se relaciona com o conceito de sustentabilidade que você defende?

Benedito Abbud - Essa democratização do espaço foi uma premissa do Alexandre Allard.

A ideia era termos desde um espaço como o Rosewood, que obviamente é um hotel de altíssimo padrão, até áreas próximas que fossem democráticas e acessíveis para outros públicos. Você pode entrar em um quiosque, tomar um refrigerante, um suco, um sorvete ou simplesmente sair da Paulista, fazer uma caminhada, respirar e encontrar outras pessoas. Criamos espaços maiores, capazes de receber encontros, festividades e comemorações, mas também pequenos lugares aconchegantes, onde você pode se isolar, conversar ou simplesmente permanecer. Quando falamos em sustentabilidade, normalmente pensamos primeiro na sustentabilidade ambiental, que é fundamental. Aqui, por exemplo, a grande quantidade de vegetação promove evapotranspiração. As plantas retiram água do solo e a devolvem para a atmosfera, ajudando a reduzir a amplitude térmica. É quase como um ar-condicionado natural.

Mas também estamos falando de sustentabilidade social. Quando você cria um espaço democrático, que pode ser utilizado por pessoas com diferentes possibilidades econômicas, você cria oportunidades de convivência. E existe ainda uma dimensão pessoal. Ter um lugar onde você possa parar, sentar, se encontrar ou simplesmente respirar em meio à cidade é fundamental para o bem-estar.

Paisagismo em Foco - Você fala muito sobre gentilezas urbanas. Como esse conceito aparece na relação da MATA São Paulo com a cidade?

Benedito Abbud - Esse ecossistema começa antes mesmo de entrarmos no complexo. Ele começa na Avenida Paulista e nas conexões com as ruas do entorno. Havia, por exemplo, uma rua de pedestres com piso intertravado, totalmente árida e pouco convidativa. Era um espaço pensado tecnicamente para o pedestre, mas não tratado com o aconchego de que o pedestre necessita.

Então trabalhamos para que as pessoas pudessem transitar por entre a vegetação. Essa ideia de “passar entre” é muito importante para nós. É você se sentir envolvido, abraçado pela vegetação. Também houve uma transformação muito significativa na Alameda Rio Claro. A drenagem foi reorganizada, o asfalto deu lugar a materiais com uma leitura mais próxima das calçadas, e a separação entre passeio e leito carroçável passou a ser feita também pela vegetação, e não apenas por guias.

Isso começa a criar um outro modelo de rua para São Paulo. E não foi simples. Para alterar padrões existentes de iluminação, drenagem e desenho urbano foi necessário um longo processo de aprovação e compromisso de manutenção. É o setor privado não apenas cuidando de uma área pública, mas ajudando a transformar sua qualidade. Hoje esse modelo já desperta interesse de outros empreendimentos e de outras cidades.

Paisagismo em Foco - Essa transformação nos leva também ao conceito de acupuntura urbana. Você sente que o impacto da MATA São Paulo já ultrapassou os limites do próprio empreendimento?

Benedito Abbud - Totalmente. Quando esse projeto começou, alguns incorporadores diziam que não acreditavam naquele local porque consideravam aquele o “lado ruim” da Avenida Paulista, voltado para o Centro. Havia um preconceito muito grande. Mas Alexandre Allard acreditou naquele lugar. A ideia da acupuntura urbana parte justamente do princípio de que uma intervenção pontual pode gerar impactos muito maiores no tecido urbano. Assim como no corpo humano uma agulha colocada em determinado ponto pode produzir efeitos em outra região, no corpo urbano você pode criar um ponto de grande atratividade e, a partir dele, transformar todo o entorno. Foi o que aconteceu aqui. Houve valorização econômica, evidentemente, mas também valorização de uso e de desejo. O lugar passa a ser reconhecido como um espaço onde as pessoas querem estar, conviver, trabalhar ou morar por perto. Por isso a ideia de acupuntura urbana se aplica tão bem a este projeto.

Paisagismo em Foco - O complexo reúne edificações de períodos e linguagens arquitetônicas muito diferentes. Qual foi o papel da vegetação na construção de uma unidade para o conjunto?

Benedito Abbud - Esse é um ponto fundamental. Desde o início sabíamos que tínhamos arquiteturas de diferentes épocas e características. Havia o hospital, a maternidade, a Capela Santa Luzia, a Torre Mata Atlântica de Jean Nouvel, o edifício AYA e outros edifícios com linguagens completamente distintas. Então utilizamos a vegetação, a natureza genuína, para criar uma integração e uma harmonia entre esses estilos arquitetônicos. Acho que conseguimos. Quando você percorre o complexo, não sente uma desarmonia entre um edifício histórico, outro contemporâneo e uma arquitetura totalmente diferente ao lado. A vegetação funciona como o elemento que costura tudo isso.

Paisagismo em Foco - Se você fosse apresentar a MATA São Paulo a alguém pela primeira vez, por onde começaria?

Benedito Abbud - Como projetamos pensando nas pessoas e nas sensações, eu considero fundamental a ideia do percurso. Quando você faz um projeto, precisa pensar de onde a pessoa vai chegar, o que vai enxergar, por onde vai passar e qual será o próximo ponto. Nós sempre tentamos construir percursos em que, a cada passo, exista uma surpresa. E a surpresa, no paisagismo, gera aquele “uau”.

Ela produz a sensação de beleza. Próximo à Capela Santa Luzia, por exemplo, existe uma escultura gigantesca verde. Poderia ser uma escultura vermelha, muito chamativa, que gritasse na paisagem. Mas ela é verde e está integrada à vegetação. De repente você a encontra. Ela não “berra”. Ela aparece e surpreende. E você pensa: que lugar maravilhoso, que lugar encantado. Essa palavra, encantamento, é fundamental.

Como arquitetos paisagistas, precisamos encantar. Primeiro o cliente. Depois os construtores — inclusive quando inventamos soluções difíceis de executar — e, finalmente, o usuário. Acho que aqui conseguimos criar esse encantamento.

Paisagismo em Foco - Esse encantamento também aparece em pequenos acontecimentos da paisagem, não é?

Benedito Abbud - Sim. Cada vez que você vem, alguma coisa está diferente. Outro dia cheguei aqui e havia uma bananeira com um enorme cacho de bananas e aquele coração roxo maravilhoso. Algumas pessoas estavam encantadas observando aquilo. Para nós, que trabalhamos com vegetação, pode parecer algo banal. Mas para alguém que não convive com isso, vira um acontecimento. A natureza começa a produzir suas próprias surpresas.

 

Paisagismo em Foco - Você comentou que, em alguns momentos, aquilo que hoje parece absolutamente natural foi resultado de muito projeto e esforço.

Benedito Abbud - Exatamente. Quando chegamos aqui havia pouquíssimas árvores, então o entorno participava muito da paisagem. Temos uma regra que costumo usar: quando existe alguma coisa desagradável na paisagem, colocamos um volume vegetal e passamos a enxergar aquilo que interessa. Aqui, por exemplo, criamos uma grande parede verde com cerca de um metro de largura, trabalhando diversidade de espécies, volumes e texturas. Isso trouxe aconchego para um espaço que antes não tinha essa sensação. Hoje você chega aqui e parece quase óbvio que o lugar seja assim. Mas esse óbvio foi totalmente construído. Foi resultado de energia, reuniões, convencimento, investimento e muito trabalho.

 

Paisagismo em Foco - Algumas escolhas de vegetação também carregam histórias muito pessoais. A árvore-do-viajante é uma delas.

Benedito Abbud - Sim. A árvore-do-viajante não é uma espécie da Mata Atlântica, nem uma espécie nativa brasileira. Mas um dia Alexandre Allard viu uma árvore-do-viajante e ficou parado olhando. Perguntei o que tinha acontecido. Ele me contou que, quando era criança, na África, viajava com o pai e ouvia dele a história de que aquela era chamada árvore-do-viajante porque um viajante com sede poderia cortar uma parte da planta e encontrar água. Naquele momento eu disse: “Então vamos trazer árvores-do-viajante”. Ele me deu um abraço e começou a chorar. Essas são as coisas que existem por trás da técnica. Existe emoção. Existe memória. E existe encantamento.

Paisagismo em Foco - Essa relação entre arquitetura e vegetação é especialmente evidente na Torre Mata Atlântica, do Rosewood São Paulo, inclusive na experiência das suítes.

Benedito Abbud - Sim. Quando você pensa no mercado imobiliário ou na hotelaria convencional, muitas vezes a vegetação é vista como algo que pode tirar a vista de um apartamento. Aqui aconteceu exatamente o contrário. Foi feito um enorme esforço para colocar árvores de até 20 metros junto à Torre Mata Atlântica. 

Alguns olhavam e diziam: “Que absurdo, essas árvores vão tirar a vista dos apartamentos”. E nós estávamos investindo justamente para tirar parte dessa vista e criar uma experiência mágica. Isso está muito ligado ao trabalho de Jean Nouvel. Ele é um arquiteto que trabalha a luz de maneira extraordinária. No Instituto do Mundo Árabe, em Paris, trabalha com elementos que funcionam como diafragmas de uma câmera fotográfica. Na Fondation Cartier, utiliza o vidro de uma forma que praticamente dissolve a arquitetura. Em Abu Dhabi, cria uma cobertura que filtra o sol. 

Aqui, ele cria a luz filtrada pela vegetação. Toda aquela mata associada à Torre Mata Atlântica nasce de uma intenção anterior ao próprio desenho: trabalhar com o sol, que é gratuito e está disponível para todos. Quando filtramos essa luz pelas copas das árvores e criamos sombras rendadas, surgem planos, profundidade e surpresa. Foi necessário um enorme esforço para que isso acontecesse.

Paisagismo em Foco - Um projeto dessa escala também exigiu uma estrutura de trabalho muito diferente da rotina habitual de um escritório de paisagismo.

Benedito Abbud - Sem dúvida. Quando fui chamado para participar do projeto, percebi imediatamente que não era um trabalho que poderia ser desenvolvido simplesmente fazendo desenhos no escritório e enviando para a obra. Era necessário estar presente. Cheguei a dizer que não conseguiria assumir porque seria preciso praticamente fechar o escritório para me dedicar integralmente a isso. Foi então que surgiu a possibilidade de montarmos uma equipe dedicada, presente no projeto em tempo integral, enquanto eu acompanhava o desenvolvimento junto ao restante do escritório. Isso foi fundamental.

Cada reunião com calculista, drenagem, irrigação, estrutura ou execução trazia questões muito complexas e demandava enorme quantidade de tempo. Um projeto como este só acontece porque existe uma equipe muito grande trabalhando por trás.

 

Paisagismo em Foco - Para encerrar, quando você pensa na MATA São Paulo daqui a 20 ou 30 anos, que legado gostaria que esse projeto deixasse?

Benedito Abbud - Esse projeto marcou muito a minha vida. Anos atrás, eu estava trabalhando em um grande projeto em São Paulo e propus utilizar Mata Atlântica. A resposta que recebi foi: “Mata Atlântica não. Quero coisas estrangeiras, mais sofisticadas”. Eu insisti e, no dia seguinte, recebi uma carta de dispensa.

Aquilo foi muito forte para mim porque mostrou que ainda existiam pessoas que não estavam preparadas para reconhecer a riqueza que temos no Brasil. Depois vem um estrangeiro, Alexandre Allard, e diz: “Vocês têm uma dádiva, que é a Mata Atlântica”. Isso teve um significado enorme. Foi um misto de sentimentos: chateação, raiva, mas também muita felicidade pela oportunidade de finalmente criar algo que pudesse se tornar um legado e um modelo.

E acho que isso já começa a acontecer. As soluções urbanas desenvolvidas aqui estão sendo observadas e replicadas em outros lugares. Por isso acredito que a MATA São Paulo não é apenas um projeto. É um modelo. Um modelo que pode servir para São Paulo, para o Brasil e até para outras cidades do mundo.



Siga-nos