Raul Canovas

 

A P A I S A G E M F E R I D A

Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

Fernando Pessoa

 

Há ocasiões (e não são poucas) em que vejo a paisagem como algo que já foi e não é mais. Olho em volta, na tentativa de descobrir e acabo por enxergar o mal trazido até a cena contundida. Sou criatura civilizada, socialmente adequado e educado, aculturado pelo asfalto e as vitrines fabricadas. No entanto, meu Deus! que saudade sinto daquilo que avistava, cobrindo o sol com as mãos, do silêncio interrompido pelo vento, dos cheiros úmidos que a mata inculta me regalava. Não, não me leve a mal, sei que a cidade me acolhe e dá polimento às minhas asperezas; reconheço inclusive, que seria difícil prescindir das coisas boas que ela me dá: o café expresso, com aquela espuminha caramelo-escuro, de minha padaria favorita, logo cedo, pela manhã; uma massa “al dente” em um lugar aconchegante; um cineminha; ficar um tempão num sebo qualquer e, de repente, trocar ideias com alguém. As cidades são assim, repletas de coisas boas, porém, e há sempre um porém, parecem constantemente acometidas pelos achaques permanentes que as enfadam e que nos enchem de tristeza.

Se pudesse alimentar ilusões, apostaria em uma cidade como aquela com que Platão sonhava, uma “pólis” cuja potência se faz notória não pelo poder, mas pela sua força espiritual e moral, uma metrópole onde a justiça impere e onde o ar puro seja um direito irrenunciável. Nessa cidade encontraríamos bem estar físico e teríamos todas nossas necessidades sociais atendidas. Seria uma cidade sincera e sustentável, talvez parecida com aquela que Marco Vitrúvio, o arquiteto do Imperador Julio Cezar, planejou numa época em que o ideal era sinônimo do divino. Os arquitetos, como Vitrúvio, eram inspirados pelos deuses e pelos sábios que sugeriam espaços sadios, para se construírem as urbes. Nelas, seus habitantes, se organizariam de modo a perseguir a felicidade como meta primordial; a cidade ideal foi comparada a um corpo perfeito e são, pelo pensador muçulmano Al-Farabi; ele recomendava que a função mais importante dessa cidade fosse a de oferecer uma educação harmônica, inspirada nas proporções físicas do homem.

Entretanto reconheço o aspecto utópico dessa minha ilusão. Sei que as grandes cidades cresceram de modo um tanto caótico e que nas últimas décadas tenta se minimizar essa desordem inventando maneiras para que as pessoas se desloquem rapidamente, ou para que vivam mais seguras. Mas isto não é tudo. Um grande conglomerado urbano precisa de uma paisagem que o represente, que o individualize; não são os shoppings, nem vias expressas, nem sequer os luxuosos edifícios de vidro e aço que imprimem o caráter da cidade e sim sua história, suas tradições e principalmente, sua flora e sua fauna. Por acaso já pensou que seria da Champs-Elysees, sem suas árvores? Ou de Sevilha, no Sul da Espanha, sem suas laranjeiras perfumando as ruas? E da capital da Áustria, sem os bosques de Viena? Pois é cada cidade tem, na sua paisagem preservada, uma coisa simbólica; pode ser um rio, como o Tibre, em Roma; uma montanha, como o Monte Fuji, em Tóquio, ou uma baía como a de São Francisco, contemplada desde a ponte Golden Gate. Acho que o que determina nossa região, o que designa de maneira especial São Paulo, e outras cidades próximas da capital do Estado, são suas matas naturais.>

Por estas bandas temos o privilégio de possuir paisagens fantásticas. Centenas de árvores que se originaram por aqui mesmo com o dever de alimentar pássaros, de proteger nascentes e rios, de sombrear suavemente a relva e de tantas outras obrigações que às forçaram a multiplicar se em famílias numerosas, agrupando uma riqueza florística monumental, se comparada com qualquer outra do mundo.

Pense nisso: a riqueza maior é aquela genuína por natureza e sagrada pela sua origem divina. Quando nos consideremos ricos de verdade, teremos o direito de respirar ares puros, de usufruir energias limpas provenientes do sol e do vento, de andar pelas ruas sem medo e de gostar da nossa cidade, vestida por uma paisagem fulgente e sem feridas


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