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Jonathas Magalhães revela que a ABAP representa algo macro e tem atividades diferentes da ANP


- Fale sobre sua formação e de que forma você se tornou presidente da ABAP (Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas)?

  Fiz arquitetura e urbanismo na FAU-USP, e a faculdade de arquitetura e urbanismo aqui no Brasil tem cinco focos principais: arquitetura do edifício, arquitetura da paisagem, urbanismo, que são as três matérias de projeto do arquiteto urbanista, e as outras duas que completam são: desenho industrial e comunicação visual, que estão muito ligadas ao design. E pelo fato da FAU ser uma universidade pensada lá na década de 60, então as atribuições profissionais ainda eram outras e ela ainda lidava com desenho. Aqui em São Paulo ela veio da engenharia e ainda tratava com desenho industrial e comunicação visual. Atualmente as áreas de arquitetura, urbanismo e design andam juntas.

Design - Hoje em dia o design é uma área muito forte e a própria faculdade de arquitetura criou o seu próprio curso de design, que é um curso noturno. A minha formação foi dentro dessa faculdade, “aberta”, então não era a do especialista, ela era do profissional que tem uma visão geral, e que vai para o mercado e começa a trabalhar. Normalmente o que acontece: a pessoa acaba se especializando na sua atividade profissional dentro de uma dessas cinco áreas. Atualmente se uma pessoa tiver interesse em fazer uma faculdade de design, ele não vai precisar fazer arquitetura, ele vai fazer design, naquela época não, a faculdade de arquitetura que dava conta disso. Isso tudo aqui em São Paulo, no Rio de Janeiro já é diferente. Lá a escola de arquitetura não nasceu da engenharia. Lá, ela nasceu da Escola de Belas Artes. E a faculdade de design é uma faculdade muito forte já desde o início. Então a estrutura da escola de arquiteto urbanista no RJ estranha arquiteto que trabalha com design, o que para eles são duas questões separadas há muito tempo. O que é importante entender é que as atribuições profissionais vão se alterando a medida que a própria sociedade entende.

Formação - A ideia de uma formação ampla é algo que me agrada. Ter uma formação ampla para atuar numa determinada área, mas tendo um conhecimento sobre as demais áreas. Eu acho muito difícil um arquiteto atuar em um edifício sem pensar na paisagem. Quando ele desenha o edifício, ele desenha a paisagem. São questões que estão muito ligadas. Saí da universidade com a intenção de nunca mais ter distância da academia. Assim que conclui o curso, iniciei minha carreira profissional e logo montei meu escritório e no início eu sempre trabalhei muito com essa questão da comunicação visual, design, porque era uma área que você tinha muita oportunidade no mercado. Fiz o mestrado trabalhando, desenvolvendo junto ao meu sócio, edifícios que estavam dentro da cidade. Projetei escolas, terminais de ônibus, o desenho do jardim, enfim. Mas minha questão continuava sendo a questão do urbano, da paisagem. Decidi fazer doutorado e nessa época, conheci um pessoal do RJ que vinha, naquela época, de 1996 a 1999, que foi o período do meu mestrado, era muito comum as pessoas virem de vários pontos do país para fazer a sua pós graduação aqui no Estado de São Paulo. Estudantes de vários estados vinham para SP, porque não existiam centros de pesquisa na área, ainda mais na área de paisagem e ambiente. A FAU, na verdade formou muita gente. Eu conheci esse pessoal do RJ e falei que quando tivesse a oportunidade de um edital para trabalhar com a área urbana, com a ressocialização de favela, enfim, para que entrassem em contato comigo. Daí eles me chamaram mesmo (risos).

Atuação - Atuei muito no Rio de Janeiro e ainda atuamos. Comecei a trabalhar a paisagem dentro das favelas. Então, os primeiros trabalhos realizados lá no RJ, foram na favela de Cantagalo, Pavão-Pavãolzinho, entendendo como redesenhar aquela paisagem construída ali e como levar infraestrutura para aquelas pessoas. Entre 2000 e 2004, entramos em vários editais também na área portuária, que estava sendo rediscutida. Como é que eu transformo aquela paisagem que é cheia de galpões vazios? Desenvolvemos e participamos de quatro projetos lá na área portuária. Além disso, desenvolvemos projetos de ciclovias na zona oeste do RJ. Como é que trabalho com transporte cicloviário junto à via e como é que eu arborizo essa via? Então isso tudo foi uma escola até 2004. Em 2005, 2006, passamos a fazer muitos planos diretores aqui no escritório.

Território nacional - Veja, eu estava em SP e atuava no RJ, nos planos diretores eu atuava no Espírito Santo, em seguida, fui chamado para realizar projetos no Pará. Fui para Rondônia e fiquei um ano e meio lá desenvolvendo projetos. O professor Silvio Soares Macedo - orientador de seu Doutorado -me envolveu na pesquisa que ele estava fazendo, que era o sistema de espaços livres no Brasil e que proporcionou várias idas a Palmas, a Fortaleza, a Florianópolis, a Curitiba, fazendo oficinas que estavam sendo promovidas. O que na verdade proporcionou entre os trabalhos profissionais e os trabalhos acadêmicos uma leitura do território brasileiro, que é muito diversa, um lugar com vários biomas, diferentes formas de você inclusive imprimir uma intervenção na paisagem. São critérios muito diferentes. Isso fez com que eu conhecesse muita gente, nos congressos da academia, mais os projetos profissionais, enfim. Lá no RJ envolvemos pessoas que são associados da ABAP. Atualmente nós temos trabalhos em Minas Gerais, tenho muitos companheiros lá que são associados à ABAP e temos desenvolvido as ações juntos. Em cada Estado, em cada lugar, eu sempre procurei os associados locais, até por conta da diversidade de biomas. Os projetos feitos, os planos diretores, não apenas em uma região metropolitana, eu estava fazendo na serra de Vitória (ES), onde a grande questão era a transformação da paisagem e de entender como eu pego isso aqui da cidade e como é que eu faço uma cidade mais justa para todos, enfim, como é que eu lido com essas questões considerando as peculiaridades daquela paisagem. Foi uma oportunidade de entender a diversidade brasileira, além disso, conheci muitas pessoas pelo país.

Atuação nas favelas - Atualmente, tenho desenvolvido trabalhos que estão muito relacionados à questão da arquitetura da paisagem e do urbanismo, que caminham juntos. Eu coordenei em 2007 e 2008, o PAC da Rocinha, onde foram dois anos de trabalho junto com Luis Carlos Toledo, que foi o coordenador geral. Então, eu acabei ficando metade do tempo lá, metade aqui. Também estamos com o projeto da CPTM, que é simplesmente entre a Luz e Jundiaí, cerca de 60 km. Então, como é que eu estabeleço diretrizes de atuação ao longo desse trecho?

Jardins - Eu tenho experiência com jardim, muitas vezes quando se fala em paisagismo, se pensa muito no desenho do jardim, que é muito importante, o desenho do espaço e do jardim, que vai desde os jardins privados, aos jardins públicos, residenciais. A nossa atuação no jardim residencial sempre foi muito pequena, eu estou longe desse mercado. Atuamos junto as ações públicas e também já fizemos grandes jardins, como aconteceu no Observatório Nacional do RJ, que é um campus da universidade. Ali era como tratar, estruturar, o urbanismo, a grande falta era o paisagismo. E eram jardins em torno das áreas tomadas, que exigiam muitos cuidados. O foco de atuação em jardins é mais abrangente. Atualmente, o município na hora de planejar o seu território, ele planeja tanto a área rural quanto a área urbana e como é que eu trabalho com as duas questões. Então, é uma atuação muito abrangente.

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Observatório Nacional do RJ

Núcleos - A outra questão da escolha, como eu tive a oportunidade de circular pelo país e de conhecer muitas pessoas, a ABAP tem atualmente como foco o fortalecimento dos seus núcleos. A associação possui atualmente nove núcleos, em nove estados diferentes, mas a ideia é fortalecê-los, e ainda faltam muitos estados. Se é uma associação nacional, ela não pode ser uma associação focada em São Paulo.

ABAP - Como é que nasceu a ABAP? A ABAP nasceu através de seus sócios fundadores, que foram pessoas muito importantes, e um que perdemos recentemente, foi o arquiteto paisagista Fernando Chacel, que era um profissional muito influente. A Rosa Kliass, que também é arquiteta paisagista e ajudou a fundar a ABAP, continua atuando pelo país inteiro. Temos também o Benedito Abbud, que realiza trabalhos grandiosos, seja em jardins privados ou públicos. Atualmente temos uma gama muito grande arquitetos urbanistas atuando nesta questão da paisagem. E não pára por aí. Há também agrônomos, às vezes geógrafos, botânicos, mas a grande questão do paisagismo, e que o Chacel falava muito, era uma questão interdisciplinar onde cada um tem um papel diferente.

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                Fernando Chacel e Rosa Kliass                                   Benedito Abbud

Arquiteto urbanista tem o papel de pensar, de estruturar os espaços. A vegetação para o arquiteto urbanista é um material de trabalho, de formação de espaço, o que é diferente da visão do botânico, do agrônomo, enfim. É uma discusão que vale a pena. Quando se fala de paisagem, estamos falando de vários profissionais. É importante entendermos a atribuição do arquiteto urbanista. Aqui no país, não temos atribuição profissional, nem a universidade que dá um diploma de arquiteto, ou um diploma de urbanista ou mesmo de paisagista. Ainda temos a atribuição "mais generalista". Tem gente que acha que é desvantagem, não encara um curso de arquitetura e urbanismo para depois atuar no paisagismo restrito ao jardim. Tem vantagens também. Ter um profissional com uma formação mais ampla, que entenda e consiga discutir o que é uma estruturação da paisagem, o que é o uso do elemento vegetal, não como decoração, mas como um elemento capaz de estruturar espaços.

Critérios - A ABAP precisa se firmar no país e deixar claro qual é o seu escopo de trabalho. As pessoas têm que entender qual é o trabalho do paisagismo, independente da formação. O que eu estou querendo dizer quando eu falo em paisagismo? Normalmente se restringe a uma questão tão pontual, que não está errado, mas é pontual. Como é que eu possibilito uma visão mais abrangente e que tenha reconhecimento social? Sem esse reconhecimento social, nossa profissão não é nada. Costumo dizer para os associados, que a profissão de arquiteto já existe há muito tempo e já está consolidada e você não tem um reconhecimento social do trabalho do arquiteto, o que já é difícil. Imagina então algo que a pessoa não consegue "visualizar" o que a pessoa está trabalhando, principalmente quando se fala na questão do planejamento da paisagem. Para o leigo é difícil entrar nessas questões, não é só para os leigos, os próprios gestores públicos. Então veja: olha o problemão que nós temos. O problema de atuar na área pública é que assim, o gestor que está solicitando algum projeto, não é o usuário. Então, você vai fazer esse desenho para quem? Para quem está te contratando? Ou é para quem vai usar? Para quem vai usar! Então, você tem que ter uma formação que possibilite o diálogo, que argumente de fato, questões relevantes para aquele recorte territorial que você está fazendo, porque senão, você vai lá e vai plantar umas "mudinhas". Como não existe de forma clara o escopo de atuação, os gestores não sabem pedir e eles têm que saber pedir, porque quanto mais eles souberem, melhor é a qualidade das coisas que se fazem, melhor é a exigência sobre o trabalho.

- Qual a importância da ABAP e de que forma você enxerga os resultados da associação para a sociedade?

  Eu acho que nós estamos em um momento super complicado. Porque, qual é a estratégia  de atuação? Veja bem, os arquitetos e urbanistas, estão saindo de seu conselho, que é o CREA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) e criaram o CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) e estão numa fase de transição. Quem está fazendo essa transição? São cinco entidades, sendo que uma delas é a ABAP, daí você tem a IAB ( Instituto de Arquitetos do Brasil), a AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura), a FNA (Federação Nacional de Arquitetos e Urbanistas) e a ABEA (Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo). Há dez anos, as instituições vêm trabalhando para a criação do CAU, agora que o conselho foi formado, para sair do CREA é uma outra briga, no que diz respeito aos novos regimentos, para refazer as eleições, enfim. Vai ser uma cópia do CREA? Acredito que não, pois nós temos opiniões próprias construidas aos longo dos anos. As cinco entidades estão acompanhando esse processo e a presença da ABAP com os seus delegados, com os grupos de trabalho que foram criados, eu acho que é uma forma de você trabalhar em conjunto. No próximo dia 9 de junho, haverá um evento no RJ, que está sendo realizado em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que irá discutir a Carta da Paisagem Brasileira. Na realidade é um primeiro encontro que vai se discutir o que será a Carta da Paisagem. Essa é uma discussão internacional. A ABAP é ligada ao IFLA (Internacional Federation of Landscape Architects), que é a sociedade internacionol que cuida do paisagismo e que aborda esse tema. Essa discussão de paisagem, começou no IFLA, aqui na América Latina. A paisagem para os europeus ou os chineses ou norte-americanos é diferente de nós latinos. Começou uma discussão e alguns países da América Latina, como Colômbia, Uruguai e Venezuela, já apresentaram interesse em obter a sua carta de paisagem. Essa é uma outra estratégia de divulgação para a sociedade. Na hora que a atribuição do profissional ficar reconhecida socialmente, não burocraticamente, você tem mais qualidade no trabalho, você tem mais discussão nos trabalhos. São todos os espaços privados ou públicos que são livres, que são destinados ao recorte do trabalho do paisagista, que não fica apenas restrito ao jardim. Isso, a professora Miranda Magnoli, já deixou muito claro lá na década de 70, mas ainda assim, a nossa legislação e a nossa sociedade ainda não assimilou isso totalmente. O objeto de trabalho do paisagista são esses espaços não edificados. Todos! A rua, por exemplo, também é. A questão da arborização viária, por exemplo, começa na questão urbanística, juntamente ao tamanho da calçada. Agora se não está claro a atuação do paisagista, na hora que irão analisar um parcelamento, vão chamar um paisagista para analisar? Não irão chamar. O desenho do parcelamento novo vai ter um olhar de quais são os focos, quais são os pontos de apoio e possibilidades de arborização, vai ter isso? Não vai ter. O que acontece hoje é que o paisagista não coordena, ele não está na coordenação e isso é muito ruim. Porque essa visão segmentária do edifício, da via, do transporte, quem tem a capacidade de juntar esses pontos dialogando com os profissionais e quem tem a possibilidade de juntar esse desenho é o arquiteto paisagista, que acaba unindo essa ações.

- Exceto o eixo Rio São Paulo, quais são os outros estados em que a ABAP é atuante?

  Atualmente, contamos com 9 núcleos espalhados por vários estados (São Paulo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande so Sul, Santa Catarina). Eu acredito que o próximo presidente da ABAP deveria ser algum profissional fora do eixo Rio SP. O foco da minha gestão é aumentar o diálogo entre os núcleos, fortalecendo o trabalho e as ações da associação.

- Quantos associados a ABAP possui atualmente?

Atualmente a ABAP conta com 170 associados.

- É um número pouco expressivo, correto?

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"O número não me interessa, o que tem relevância são de fato os projetos"

  Somente no Estado de São Paulo, contamos hoje com cerca de 60 faculdades de arquitetura, onde cerca de 100 alunos se formam anualmente. Todos os profissionais inseridos no mercado irão se filiar em alguma associação. A ABAP só aceita o arquiteto urbanista como sócio, se ele atuou e realmente fez um projeto como paisagista. Então ele tem que apresentar este projeto. Essa é a grande diferença da ABAP. Nós trabalhamos com projeto e não com a execução de projeto. E nós temos parceiros. Eu considero um número baixo sim e acredito que pode ser elevado quando os núcleos se firmarem. O número não me interessa, o que tem relevância é que de fato, nós tenhamos profissionais formados em arquitetura e urbanismo, que tiveram projetos e que atuam no mercado, porque é uma associação que não se mede pela quantidade e sim pela qualidade de seus associados. O profissional associado a ABAP passou por um crivo, uma comissão curricular e isso faz uma grande diferença.

- Qual o seu grande desafio na presidência da ABAP?

  Eu tenho um grande desafio que é acompanhar essa transição do CAU. Encontrar meios de fortalecer os núcleos da associação e esse fortalecimento diz respeito a questões operacionais também. Vale destacar a construção da Carta da Paisagem, por isso que a reunião do próximo dia 9 de junho é muito importante.

- Fale sobre as conquistas da ABAP.

  A ABAP lida com poucos recursos, então qualquer questão que envolva uma exposição, por exemplo, onde vai exigir transporte, enfim, é difícil de ser colocada em prática. Por isso, dependemos muito de patrocínios. Atualmente, contamos com a participação de alguns patrocinadores que possibilitam a atuação da ABAP em alguns eventos. Eu diria que como conquista, seria estar discutindo com outras associações há dez anos e finalmente ter conseguido sair do CREA, que é sem dúvida uma grande conquista, que é da ABAP também. Outra grande conquista, sem dúvida são os núcleos estaduais da ABAP, que centralizam mais força para a associação.

- Você é a favor da regularização do curso superior para formação de profissionais em paisagismo?

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"Sem o reconhecimento social, é melhor que não exista esse curso"

  A ABAP vê essa possibilidade e acha que isso é uma construção histórica e acha que não vai acontecer de uma hora para outra, e é bom que não aconteça. Sem o reconhecimento social, enfim, é melhor que não tenha, porém, a ABAP vê a oportunidade de cursos específicos. Penso nisso para daqui 30 anos, isso é claro, se começarmos a fazer algo agora, senão, nunca vai ter. O que seria essa atuação? Não é a criação de cursos. Acho muito prematuro. É justamente buscar o reconhecimento social, ter uma atuação mais ampla para ver se a sociedade acha que é realmente importante para o país esse modelo que é seguido em alguns países. Porque não são em muitos países que essa questão é desmembrada. Tem países, que você tem a formação do arquiteto, do urbanista, do landscape architect. Neste momento, eu não abriria o curso aqui no Brasil, porque não temos suporte social, nem reconhecimento claro de qual é o recorte. Corre-se o risco de abrir o curso agora, por exemplo, e fazer um recorte, que é uma questão pontual para atender um mercado que está demandando agora. Só que daqui há alguns anos, se ocorrer um déficit na economia, deixará muita gente a ver navios. Eu não enxergo isso agora. É um processo, mas quem sabe daqui alguns anos, com o reconhecimento social, caminharemos para isso. Mas eu não sou a favor de erguer a bandeira e dizer que está na hora de abrir cursos específicos porque o mercado está demandando. O mercado está em expansão agora porque nós estamos vivendo um momento expressivo, onde toda construção civil está em ascensão. Enquanto nossa sociedade não se tornar mais justa e distribuir melhor os recursos, eu não vejo viabilidade na abertura desses cursos. Eu acho que a própria atuação do arquiteto hoje muito mais relevante, não quero dizer que consiste em atuar na classe com as altas rendas. O grande desafio está justamente em você atuar nas classes de baixa renda. O arquiteto urbanista tem um papel social que é fundamental nessas questões e eu falo não teoricamente, mas com experiência mesmo.

-  Existe no Brasil algum município que seja exemplo no que diz respeito a arquitetura da paisagem?

  Sabe que um município que eu acho que é um exemplo, no sentido de sistema de espaços livres é a cidade de Londrina (PR). Existe nesse município uma preservação muito interessante dos seus vales, os desenhos dos parques. O sistema de espaços livres e públicos e a forma de ocupação que Londrina tem, que é uma cidade desenhada e uma cidade planejada ao longo de seu processo histórico de construção, tornam a cidade de Londrina muito interessante.

- Qual é a grande diferença entre a ABAP e a ANP (Associação Nacional de Paisagismo)?

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"As associações têm ações completamente distintas"

  Pode até ser que tenha arquiteto associado lá na ANP, mas o nosso foco é projeto, que não é algo que voce aprende em um cursinho. Projetar espaço não é algo que se aprende num simples curso. Você vai aprender isso ao longo de uma formação. Essa é a diferença. É diferente eu especificar uma vegetação dentro de uma jardineira pré definida, uma forração, enfim. Isso é uma atuação, que por sinal é necessária, ótimo e é bom que seja feita. Mas é totalmente diferente de você projetar um espaço. Você não projeta espaço fazendo um curso aqui, um curso ali, tem que existir uma formação para isso. O foco da ABAP é lidar com projeto arquitetônico, projeto paisagístico, que está lidando com a constituição de espaços. Um arquiteto paisagista atuando, que é o caso do Benedito Abbud, que vai gerar espaços, com sequências, as concepções, enfim. Ele está trabalhando com uma questão espacial. Eu acho que a ANP está muito ligada as questões do fazer, que é importante. O que não dá é confundir uma coisa com a outra. As associações têm ações completamente distintas. Uma lida com projetos, produz espaços, é isso que estamos falando. A outra lida com questões diferentes, por exemplo, como é que eu agrego os fornecedores, tem uma importância nesse sentido do fazer, do consumir, da obra, etc. e tal, que também é importantíssimo. Agora o problema é quando essas questões não estão claras e daí alguns associados da ANP são chamados para algumas questões e não percebem o limite da atuação. Veja: eu não saio por aí contratando um fornecedor ou outro tentando viabilizar uma obra, não é o meu papel. O meu papel está no projeto. Não acompanho a ANP, não sei quem está na ANP e não sei como é que estão as questões lá. São focos e atuações diferentes. Não tem como existir uma "associação" entre as entidades. Porque não tem como? Porque são questões completamentamente diferentes. Veja só a dificuldade que nós temos como projetistas de especificar a vegetação que os viveiristas realmente tenham. Acontece ao contrário, nós vamos lá, observamos o que o viveirista tem e daí especifica. A ANP tem uma atuação junto aos viveiristas, junto ao jardinista, ao pessoal que lida com toda a produção do material que vai estar lidando com os espaços vivos. Ela tem uma atuação junto a essas pessoas. Os profissionais executam, lidam diretamente com esses fornecedores. Se está claro que este é o foco, então eles conseguem provocar nos viveiristas, nos fabricantes de materiais, uma diversidade que o Brasil não tem como material construído e que tem como vegetação e não tem nos viveiros. Quando vamos realizar um projeto no Pará, por exemplo, esquece, pois temos que ir lá procurar vale, achar viveiros com mudas locais, para daí sim especificar algo local. O fazer não é menor, pelo contrário, é o grande desafio. Agora não adianta querer conversar com a IFLA, porque ela está preocupada com questões que são da estruturação, do planejamento da paisagem, o desenho da paisagem. Ela não está preocupada com o material, com os viveiros, com questões locais, é outra pegada. São focos diferentes. Mudar o foco de uma associação é estranho, a ABAP segue uma linha que é muito clara, com uma representatividade muito importante, tanto nacional, quanto internacional.

fonte: www.abap.org.br

imagens: Reportagem Paisagismo em Foco


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